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TRATAMENTO COM CÉLULAS-TRONCO EVITA AMPUTAÇÃO DE PÉS

01/11/2015 20:17

Se não funcionasse, poderia perder o pé ou mesmo parte da perna. Como última opção, iniciou um tratamento experimental com células-tronco extraídas da medula óssea. Hoje, cinco meses após a terapia, o sangue voltou a circular nas veias do pé de Andrade, o que evitou a amputação. "No início, não achei que meu pé pudesse ser salvo. Hoje ele está ótimo. Agradeço primeiro a Deus, depois às células-tronco", relata o aposentado, emocionado. Andrade é um dos dez pacientes tratados em um projeto de pesquisa coordenado pela PUC (Pontifícia Universidade Católica) do Paraná. Ele e outras sete pessoas conseguiram evitar a amputação dos pés. Outras duas não tiveram a mesma sorte. Inédito no país, o estudo é feito em quatro hospitais--dois de Curitiba, um de Salvador (BA) e um de São José do Rio Preto (SP). O financiamento vem do Ministério da Saúde e do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico). Segundo o médico Jorge Timi, coordenador da pesquisa no Hospital Angelina Caron, de Curitiba (PR), onde oito dos pacientes foram operados, a técnica só é aplicada em pessoas com risco iminente de amputar pés e pernas. Eles têm uma doença chamada de isquemia de membro inferior, que decorre, principalmente, de complicações do diabetes. A falta de circulação do sangue provoca entupimento das artérias que irrigam as pernas, o que também pode causar ataques cardíacos e derrames. No estágio crítico, como estava Andrade, o paciente mal anda. Tem feridas que não cicatrizam e necrose em partes da perna. Quase todos os casos (98%) acabam em amputação. "Nada funciona mais. Nem medicamentos [como os vasodilatadores] nem procedimentos [ponte de safena ou stents]", explica Timi. Nessa fase da doença, os pacientes têm expectativa de vida 25% menor. Após grandes amputações, esse índice sobe para 50%. No Brasil ocorrem cerca de 40 mil amputações de membros inferiores por ano, 90% delas causadas por diabetes não controlado adequadamente, segundo a Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular. TRATAMENTO As células-tronco têm por característica se dividir e formar duas células filhas. Uma delas permanece igual à de origem e a outra pode se diferenciar em outro tipo de tecido de acordo com o tratamento a ser feito. Elas liberam imuno-hormônios e fatores de crescimento com alto potencial de estimular a formação de novos vasos sanguíneos. Segundo Paulo Brofman, coordenador do Laboratório de Tecnologia Celular da PUC do Paraná, após serem retiradas do osso do quadril, as células são processadas e injetadas na perna e no pé. "A expectativa é que o sangue volte a circular na área isquêmica [com falta de circulação sanguínea], melhorando ou curando as feridas." VOLUNTÁRIOS Estudos semelhantes já foram feitos em países como França, Alemanha e EUA. Mas é preciso replicar o tratamento em mais pacientes para que ele possa entrar na prática clínica. Brofman relata dificuldades no recrutamento de voluntários, especialmente porque o projeto só aceita doentes graves--muitos nessa fase acabam sendo amputados. "Há muitos pacientes que podem ser beneficiados. Estamos divulgando na esperança de alcançar os 45 voluntários [número necessário para finalizar o projeto]."

CLÁUDIA COLLUCCIDE FOLHA DE SÃO PAULO